Se o espiritismo não é conformismo por que é consolador? O mendigo é mendigo porque merece? – Ilha de Java

Se o espiritismo não é conformismo por que é consolador? O mendigo é mendigo porque merece?

Estamos carecas de saber que o espírita diz que a reencarnação de uma pessoa que se dá em condições lastimáveis é , segundo eles,  é por conta de prova, expiação e missão.
Na prova o espírito pediria tal situação para aprender uma lição, como por exemplo ser menos arrogante ou comer menos.
Na expiação o espírito pede para nascer daquela forma pois quer se castigar por causa que na vida passada ele humilhou alguém que estava numa situação lastimável.
Na missão o espírito pede para nascer em estado lastimável pois lá do outro lado ele é valente e acha que irá ensinar ou sensibilizar muitas pessoas usando dessa situação enquanto pasta na terra.

O que existe em comum nessas três situações hipotéticas apresentadas pelo espiritismo kardecista:
A utilização do sofrimento como meio para a obtenção de um estado digno e superior da alma humana, conceito este tomado emprestado do cristianismo.  E a responsabilização do próprio ser humano por todas as suas próprias desgraças, conceito esse usado no liberalismo econômico(capitalismo selvagem), onde o cidadão que não deu certo ficou assim porque é preguiçoso e vagabundo.

É importante ressaltar que em um país onde existe uma desigualdade social tão grande como é o caso do Brasil, as pessoas de classe média alta que geralmente herdam dos seus pais o patrimônio intelectual que lhes

permite estar à frente da maioria das pessoas pobres, sentem uma culpa avassaladora por viverem relativamente bem em meio à uma miséria inquestionável , sendo assim, não é à toa que o espiritismo kardecista é uma religião tão querida que goza de respeito entre as pessoas de classe média média alta e aspirantes.

Me explique melhor o porquê de uma pessoa de classe media alta escolheria o kerdecismo como religião?
Bom, tirando os sociopatas que não sentem-se mal com nada, as pessoas que herdaram um patrimônio cultural e financeiro dos seus país e os multiplicam usando um diploma de faculdade, costumam ser donas de um imóvel, têm um carro, se vestem bem, gastam com produtos de higiene e investem mais na manutenção de sua saúde, ou seja, elas têm uma vida psicológica e financeira mais saudável que as demais não têm, no Brasil elas vivem numa espécie de ilha ou oásis, porem muitas vezes essas pessoas precisam ir às ruas, fazer compras, estacionar os seus carros em frente à uma farmácia ou banco e aí se deparam com um mundo que as choca, o mundo da miséria, o mundo da extrema pobreza que bate à porta dos seus carros lembrando que a vida não é um mar de rosas capitalista.

Isso faz com que muitos cidadãos dessa classe média que viaja pra comprar enxoval em Miami , se perguntem por qual motivo o mundo é como é: Por que enquanto eles estão num conformo relativo, pessoas dormem com crianças em frente aos bancos de onde eles retiram dinheiro para sustentarem os seus luxos?
Essa indagação causa desconformo e incomoda a qualquer um que tem um resto de coração no peito.
Então para essa questão que as vezes deixa inquieta a moral das pessoas que vivem bem, inventa-se uma muleta, uma fuga, um ópio: atribui-se uma situação grandiosa e espiritual a todos os fatos e com isso se cria o consolo e o alívio tão grande de não se ter responsabilidade nenhuma sobre a degradação do outro, afinal pensar no outro, como se diz hoje em dia, é coisa de comunista ou esquerdopata, então fala-se que aquele mendigo de aparência assustadora dormindo em frente ao banco ou mercado nos importunando está assim porque quis e porque mereceu graças à  prova que ele pediu na terra, a expiação que ele necessitou e a missão que ele quer desempenhar para evoluir. Com isso cria-se uma sensação de bem estar entre espíritas de classe média pois eles não precisam se culpar com o mal estar do outro em estado deplorável na rua, ele sabe no fundo do peito que aquela pessoa provavelmente irá receber um BONUS depois de morta e ainda irá evoluir bastante pois sofreu muito, com isso dentro de si ele acaba com o sentimento de culpa, faz uma oração para o mendigo melhorar, da a ele um real ou um prato de sopa e acha que com isso estará eximido-se de uma futura reencarnação no mesmo estado. Realmente é muito consolador saber que a pessoa que sofre em estado lastimável na minha frente e que eu com o meu dinheiro poderia ajudá-la,  está assim porque  pediu ou porque merece. É aquela velha frase muito em voga: Os fins justificam os meios…

Se o mendigo ou o deficitário em alguma área da vida está assim porque pediu ou porque precisa disso para evoluir, podemos chegar à conclusão extrema que em alguns casos, a ajuda seria até prejudicial a esse tal espírito. Digamos que hipoteticamente fulano pediu para nascer mendigo , feio e homossexual(quase eu) para aprender a não desdenhar dos outros, daí eu vou lá , decido dar um  banho de loja nesse fulano, o faço ficar rico dando-lhe milhões, ele então voltaria a esnobar as pessoas e eu com isso estaria na verdade  atrapalhando o suposto desenvolvimento dessa alma que almeja crescer  tanto perante os conceitos kardecistas de pureza e evolução, sendo assim, seria mais cômodo da minha parte deixar a pessoa se danar sozinha pra lá e cuidar da minha vida, no máximo eu daria uma sopa para o mendigo mas de resto eu não sentiria mais a culpa nenhuma dele ser desgraçado e eu estar em uma situação gloriosa que a pirâmide Maslow prega.

O ser humano precisa atribuir um motivo a um erro que cometeu para aliviar a sua culpa, não é à toa que queremos dar explicações aos outros quando achamos que somos vistos como errados.
Com a aceitação da suposta causa contundente que me fez entender que o inferno é os outros, eu me tranquilizo, não me revolto contra a vida e me conformo, pois eu sei os supostos mecanismos de controlá-la: se eu quiser ter uma vida melhor na próxima reencarnação eu ajudo os deficitários, falo manso, não xingo, sofro pelos outros moderadamente e vou ler Kardec, pronto! Descobri o mecanismo de como controlar a vida, é realmente o sonho de todo cérebro humano: controlar a natureza hostil com máquinas, ações ou pensamentos mágicos  que garantam o conforto que me faz seguro e conformado com a calamidade dos outros. Por isso eu chego à conclusão que o espiritismo é uma religião, embora falem ser uma ciência, que é popular por aliviar a culpa dos abastados, sedar os desgraçados e deixar os revoltados resilientes e subservientes aos caprichos da suposta espiritualidade. Quem acha que entende os mecanismo de um sistema, não tem porquê se revoltar contra ele quando pode controlá-lo. Quem acha que recebeu e aceitou uma missão, também não tem como se revoltar por te-la aceitado, lhe restando apenas o conformismo de cumpri-la. Por isso o espiritismo induz ao conformismo em se aceitar determinados fatos supostamente acordados e descritos numa vida intermissiva antes dessa, por isso tudo dever ser louvável espiritualmente ser mendigo no bairro de Higienópolis em São Paulo, não existe expiação, missão ou prova melhor…

 


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